Quarta-feira, 9 de setembro de 2026
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Cicatrizes

Mas as cicatrizes da alma e do corpo sempre abrem, aumentam ou procuram novos espaços para novas marcas

Ester chegou ao centro do penhasco e olhou a profundidade. Teve uma leve vertigem e um frio percorreu sua espinha. Voltou os pensamentos para o dia seguinte e retomou a caminhada rumo a sua casa. Pensou alto:

- Vai que hoje Pedro muda seu comportamento. Mesmo assim estou cansada!

Enquanto caminhava, seus pensamentos foram para longe. Lembrou-se de Dona Helena que a orientava e sempre reforçava a importância dos estudos. “Se tivesse seguido o que ela dizia. Ela era como uma mãe! Dizia para mim que não gostava dos assédios de Pedro, pois eu tinha 15 anos e, ele, 40. Na verdade, o que eu queria era alguém para me “amparar”.

A vida não era fácil para a família. A mãe Madalena criara Ester, a irmã gêmea, Edith, e o irmão Antônio, sozinha, humildemente e sempre com otimismo. A casa onde viviam era de madeira, simples e de poucos cômodos, tinha um fogão a lenha que a mãe conseguia aquecer a casa e cozinhar com lascas de madeiras que coletava nos arredores. 

Antônio era revoltado, vivia metido em encrencas, fora preso algumas vezes. Dona Helena enviava as roupas dos filhos para as crianças de Antônio. Agora estava solto. A irmã gêmea tinha os cabelos loiros, a pele clara e as maçãs do rosto rosadas tal como Ester. Elas viviam juntas, conversavam muito. A irmã era feliz, bem “amparada” e tinha duas filhas lindas e um marido bom. 

Mas a vida não estava fácil com Pedro! Ficava nas madrugadas bebendo, usando drogas e, quando chegava em casa tarde, alcoolizado, espancava Ester. Estava insuportável para quem queria ser cuidada, “amparada”. Afinal ela não tivera uma figura masculina positiva em sua vida e, assim, não tinha referência. Mas chegou em casa com a esperança e, como cristã, com fé, de que Pedro mudaria. 

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Mas as mesmas coisas de todas as noites se repetiram. Quatro anos vivendo em um ambiente doentio de alcoolismo, de drogas, de violência. E assim Ester decidiu que de amanhã não passaria. “Basta!”, concluiu.

Com uma noite mal dormida, o rosto pálido, um pouco sem equilíbrio, machucada, levantou-se, penteou os longos cabelos loiros e lisos. Olhou Pedro que dormia. Olhou no relógio e viu que eram seis horas da manhã, tinha neblina, um típico dia de outono. Abriu a porta e, antes de encostar, deu a última olhada para o interior da casa. Não chaveou e não levou a chave. Lembrara de colocar a identidade no bolso e seguiu com passos firmes e decididos rumo ao extenso penhasco. Como tinha analisado, sabia que não precisava da maior profundidade. Chegou e andou até um ponto mediano, subiu e se jogou. 

Ester acordou depois de dias no hospital. Perdera um rim. Quebrara costelas e sentia muita dor. Viu sua mãe Madalena chorando ao seu lado e seu irmão Antônio que, com afeto, segurava a mão direita. Muita dor! Canos, tubos, sondas, respirador..., o que é tudo isso? ... Com o pensamento confuso, começou novamente lembrar-se de tudo e percebeu que não tinha morrido. Ester foi socorrida com vida, sua queda fora amortecida, pelos galhos das árvores e pelos pneus que estavam jogados, no local. “O que fiz?” Se perguntara. “E agora?” Mexeu as pernas..., “sinto minhas pernas. Vou poder andar! ‘E adormeceu.

Dona Helena, quando avisada do ocorrido, foi ao hospital, chorando, “o que sua menina tinha feito!” Chegou e encontrou Antônio sentado na parte externa do Hospital sentindo uma grande revolta contra Pedro. Recebeu o conforto, o abraço e as palavras de que tinham que pensar em Ester. Helena chegou ao quarto e pode rapidamente entrar para ouvir Ester, com muita fraqueza, dizer: “deveria ter lhe escutado”. Mas o amor não é racional. O amor é emoção e a razão não tem entrada quando a emoção está falando mais alto. 

Madalena também não se conformava, pois apoiou e abençoou a união de Ester e Pedro, pois queria que as filhas não sofressem como ela e que Ester fosse “amparada” por um homem bom.  Dias e dias se passaram, Pedro não teve coragem de ver a esposa no hospital. A culpa tomou conta da sua pessoa. Sentiu-se responsável pelo ocorrido com Ester.

Porém quis a vida que, depois de curada e com a irracionalidade do amor, voltassem a viver juntos. Finalmente Pedro mudará. Ester teve que passar pela dor mais profunda para ver a mudança do esposo. Ester confiou na terapia, no tratamento e, tempos depois veio a notícia de que teriam um filho. Ester teria razão para viver! Um filho. Novamente aquela sensação de frio percorreu sua espinha. “O que faria? Como cuidaria de uma criança se fora tão desiquilibrada e tinha tomado uma atitude drástica?” Ficou com medo, mas sabia que teria que enfrentar seus monstros internos e externos e criar o filho.

Mas as cicatrizes da alma e do corpo sempre abrem, aumentam ou procuram novos espaços para novas marcas. Soube que sua mãe Madalena estava com câncer terminal, então, dedicou-se à mãe e cuidou dela até a sua morte em poucos meses. Seu irmão Antônio voltara para a prisão e precisava olhar pelos filhos dele. Dessa vez ele ficaria mais tempo, fora condenado por tráfico de drogas. 

No sepultamento, simples, de sua mãe, conseguiu permissão para seu irmão acompanha-las. Antônio retornou para a prisão após abraçar longamente Ester e Edith. Não perdoara Pedro pelo ocorrido com Ester. Tinha rancor e mágoa pelo sofrimento da irmã.

Não menos que um mês, do passamento da mãe, o filho de Ester e Pedro nasceu. Saudável. Lindo. E a vida de Ester ressurgiu. O filho era tudo. Sua vida. Sua tábua de salvação. Sua irmã Edith fora a madrinha, as sobrinhas estavam felizes com a vida renovada da tia. Seguir em frente era a melhor opção.

Estavam tão envoltos com tantos desafios e problemas que não perceberam a doença de Edith, uma depressão avassaladora. Edith mostrou-se forte em todos os momentos, suportou tudo desde a infância pobre, a tentativa de suicídio de Ester, a morte da mãe, mas a prisão do irmão fora insuportável para Edith, que, numa manhã, se jogou do prédio, onde trabalhava. Edith deixava o marido que a amava e suas filhas. Ester, que se achava a mais fraca, tornou-se a mais forte, cuida de seu filho e tira tempo para olhar pelas sobrinhas. O suicídio da irmã fora muito doloroso. Ao longo da vida, as cicatrizes abrem e fecham, ressurgem e novas marcas são geradas.

Dona Helena, quando cruza o caminho de Ester, revive essa história e, quando conversa com Ester, percebe a força que emergiu de uma pessoa que tentou tirar a vida. Deus não quis. Deus foi amortecendo sua queda. Deus tinha outros planos para Ester e, sábio como é, precisaria de Ester. Ester caminha com suas cicatrizes no corpo e na alma, mas como uma mulher guerreira, com passos firmes e decididos no comando de sua vida, sabendo que somente Ela poderia se auto “amparar”. Empoderou-se.